Mulheres que amam demais

Mulheres que amam demais

30 nov, 2011 - Por

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É muito amor. Uma mulher que tenta investir na carreira de jogadora de futebol talvez tenha mais apreço pelo esporte do que qualquer ser do sexo oposto. Desde cedo, quando precisam se misturar a um batalhão de garotos para jogarem futebol, as meninas sofrem com uma série de obstáculos e preconceitos a que os homens não estão acostumados. O julgamento é ferrenho: ainda hoje, muitas garotas são vistas com maus olhos por outras garotas, por garotos e até por adultos só por preferirem chutar uma bola do que brincar de casinha – ou por fazer as duas coisas com o mesmo prazer. São chamadas de lésbicas. E muitas, de fato, o são.

O primeiro obstáculo, então, é a sexualidade. Quando uma jogadora mais velha consegue levar sua vida normalmente e tem sucesso atuando como jogadora, passa a ser mais respeitada pelas colegas e logo vira um exemplo de vida para as outras garotas. É o que acontece com a zagueira Viola, de 35 anos, que atuou emprestada ao Grêmio na Copa Vivo deste ano pelo São Francisco, a principal equipe da modalidade no estado e na região Nordeste. Ela namora a também zagueira Carol e é um exemplo para as outras jogadoras do time. “O problema”, diz Daniel Conceição, diretor do Grêmio, “é que muitas delas ainda estão no início da carreira e acham que podem ter a liberdade das mais velhas, que já tem uma vida estabelecida. Por isso eu digo que elas tem que estudar, fazerem uma faculdade para terem um trabalho bom e poderem se sustentar, pra não deverem nada a ninguém e sofrerem menos com o preconceito”. No Grêmio de Lauro de Freitas, nenhum dos membros da diretoria esconde que boa parte das integrantes do elenco é homossexual. Daniel, Reizinho e Fabio Leon não veem problema algum nisso.

O segundo obstáculo é a falta de espaço para o futebol feminino em Salvador e no Brasil. Muito embora a jogadora Marta já tenha vencido o prêmio e melhor do mundo pela Fifa por cinco vezes e a seleção brasileira já tenha duas medalhas de prata e um vice-campeonato mundial, o futebol feminino, no país, é semiamador. Poucas jogadoras conseguem viver apenas dos salários obtidos com o esporte. Para se ter uma ideia, o São Francisco, equipe baiana mantida pela prefeitura de São Francisco do Conde, já ficou na terceira posição da Copa do Brasil por três vezes nas cinco edições do torneio (o único feminino de caráter nacional), levou duas jogadoras à última Copa do Mundo, naturalizadas para defender Guiné Equatorial, e paga apenas 1200 reais mensais de ajuda de custo. O valor é o mais alto na Bahia – Vitória e Bahia, por exemplo, pagam cerca de 300 reais às jogadoras e apenas quando estão disputando o Baiano. “O que eu admiro nessas garotas é que elas jogam apenas por amor, sem esperança de retorno financeiro mesmo”, explica Daniel. Somado a isso, é preciso considerar o fato de que não existem divisões de base exclusivamente femininas e que, desde cedo, mulheres jogam contra homens mais novos nas escolinhas.

Em Salvador, é consenso que a Copa Vivo tem incentivado a prática do futebol feminino. Na primeira edição, em 2010, oito times estavam devidamente formados, mas com algumas concessões e incentivos, a competição teve 12 equipes, sem limitação de idade. Em 2011, 16 times participaram e, para o ano que vem, com a expectativa da Federação Estadual de Futebol Amador de que a competição feminina tenha 24 equipes, será possível fazer uma competição separada da masculina. Assim, as mulheres não precisarão jogar nas preliminares, antes do jogo dos homens, normalmente, em horários piores e com mais sol.

Nestes anos de crescimento do futebol feminino na cidade, o Grêmio de Lauro de Freitas é, certamente, a equipe de grande sucesso. Nas duas edições da Copa Vivo, o time sagrou-se campeão. Somando todos os torneios e amistosos, está invicto há 32 jogos, com 30 vitórias. Por isso, a equipe tricolor resolveu se filiar à Federação Baiana de Futebol e se inscrever para a disputa do Campeonato Baiano. A profissionalização é algo caríssimo, para equipes masculinas. Times profissionais, com o Redenção, estão pedindo ajuda para a Fefa, de acordo com Milton Rodrigues. “Jogador de futebol tem de ter assistência médica, plano de saúde médico e dentário, alimentação correta… uma bola é barato, mas o esporte, em nível profissional é caro”. No feminino, o cenário é diferente. Como a categoria ainda é amadora – no máximo, semiprofissional -, chegar às primeiras divisões é algo mais barato. O Grêmio, que é inteiramente financiad por seus diretores, José Reis (o Reizinho) e Daniel, precisaria de alguns patrocinadores mais fixos para que os dois não desembolsassem tanto dinheiro.

Embora tenha conseguido a filiação à Federação Baiana de Futebol sem problemas, o Grêmio teve a inscrição negada no campeonato baiano deste ano porque 12 equipes já participariam e em número ímpar não seria possível realizá-lo. Em contrapartida, o Estrela de Março, antiga equipe que chegou a se profissionalizar na década de 1960 – com um time de futebol masculino – foi aceito mesmo que tenha chegado a tomar três W.O. seguidos em torneios amadores da cidade. Atualmente, a estrutura do Grêmio é superior à do Estrela, mas o adiamento da participação para o ano que vem pode ajudar os tricolores a se planejarem melhor.

A história gremista é interessante porque foram as mulheres que deram visibilidade ao clube. Normalmente, em clubes que tem equipes masculinas e femininas, o destaque e os investimentos se concentram do lado que tem mais testosterona. Fundado em 2002 por Reizinho, que sempre teve o sonho de dirigir um time, o Grêmio era apenas uma equipe masculina – e o próprio dirigente jogava, como zagueiro e volante. Colecionava maus resultados até que, em 2009, um empresário que queria uma equipe feminina em um campeonato de futebol de salão de Lauro de Freitas, apresentou Reizinho a Daniel, que treinava garotas – entre elas, sua filha Williane, conhecida como Ully, dona da lateral-direita aos 19 anos.

O vice-campeonato no torneio agradou a todos e o Grêmio passou a ter uma equipe feminina de futebol de campo, ao passo que a masculina deixaria de existir. A equipe de campo conquistou dois títulos ainda em 2009, em campeonatos de Cajazeiras e Lauro de Freitas, o que impulsionou o projeto. Em 2010, Fabio chegou ao time e deu início à construção da base do 4-2-3-1 que venceu a Copa Vivo neste ano. O time-base era o seguinte: Rai Valente; Ully, Carol, Karlla, Rafinha; Zeny West, Ana Flávia; Vanessinha, Índia, Sueline (Thaís); Thiane. Algumas jogadoras, como Ully ou Rafinha, pelo bom desempenho nos campeonatos, chegam a ganhar bolsas em universidades, em cursos como Educação Física ou Nutrição. O sucesso das meninas reacendeu em Reizinho o desejo de dar nova vida ao time masculino, que está sendo reformulado e deve voltar a disputar competições em 2012.

Se não conseguiu jogar o Baiano, o Grêmio cedeu jogadoras para várias equipes que disputaram a competição. Janice, Vanessinha e Ana Flávia foram emprestadas ao Lusaca, que está na final; Índia jogou no Dias D’Ávila e Ully atuou pelo Bahia. As três jogadoras (Vanessinha, Ully e Índia), que foram levadas ao Vitória por Fabio Leon, não se adaptaram e preferiram jogar em outros clubes. Além delas, o Grêmio também cedeu Daniel e Fabio para outros times. O primeiro dirigiu o Bahia e o segundo foi auxiliar do Vitória, que jogará a final contra o Lusaca neste sábado. A rodagem das garotas deve ser muito importante para que o Grêmio continue fortíssimo – e favorito – para os torneios femininos do ano que vem. Atualmente, nenhuma outra equipe soteropolitana tem a mesma estrutura e a experiência das jogadoras. A experiência de Viola, por exemplo, deve ser aproveitada ainda no ano que vem: ela foi convidada para ocupar uma das diretorias do time e deve aceitar.

O Grêmio inaugurou, em 2010, um núcleo em Cajazeiras VI para observar atletas e facilitar o treinamento das que moram no bairro. Hoje, treinam muito mais lá do que em Lauro de Freitas porque a maioria das jogadoras é do super bairro da capital. Por outro lado, isso fez com que algumas jogadoras se afastassem do clube. É o caso das meia-atacantes Ítala e Ed, moradoras de Vida Nova e fundadoras do Grêmio, quando a equipe ainda era de futsal. “A gente teve de sair porque ficou longe para a gente ir treinar, mas estamos estudando para entrar na faculdade e ainda torcemos muito para as meninas”, diz Ed, sem demonstrar arrependimento, porque ainda bate uma bolinha nos fins de semana.

As duas estão felizes porque, acima de tudo, o trabalho do Grêmio em Cajazeiras tem dado resultados muito positivos. Oito garotas descobertas em Cajazeiras chegaram ao clube em 2011, para a Copa Vivo, e não devem sair. Dentre as equipes femininas, o Grêmio é uma das poucas que tem 30 atletas fixas para o trabalho, além de uma equipe formada apenas por meninas de menos de 17 anos. São as raízes de um trabalho a longo prazo que pode mudar a perspectiva do futebol feminino em Salvador e na Bahia. Tudo pelo amor, para a felicidade de Ítala e Ed.


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